Aquecimento Oscar: as décadas de 1930 e 1940

Entre mudanças de calendário (O Oscar passou 3 anos – de 1930 a 1932 – sendo entregue no início de novembro e depois retornou para a sua data habitual, entre fevereiro a abril), as décadas de 1930 e 1940 consolidaram muitas estrelas e diretores importantes do cinema. A premiação da Academia também passou a ter mais valor e tornou-se uma das mais respeitáveis (embora, vamos combinar que, até hoje, nem sempre eles acertam). Os vencedores foram:

1930: Sem Novidade No Front, de Lewis Milestone

1931: Cimarron, de Wesley Ruggles

1932: Grande Hotel, de Edmund Goulding

1934: Cavalgada, de Frank Lloyd

1935: Aconteceu Naquela Noite, de Frank Capra

1936: O Grande Motim, de Frank Lloyd

1937: Ziegfeld – O Criador de Estrelas, de Robert Z. Leonard

1938: A Vida de Emile Zola, de William Dieterle

1939: Do Mundo Nada Se Leva, de Frank Capra

1940: …E O Vento Levou, de Victor Fleming

1941: Rebecca: A Mulher Inesquecível, de Alfred Hitchcock

1942: Como Era Verde o Meu Vale, de John Ford

1943: Rosa de Esperança, de William Wyler

1944: Casablanca, de Michael Curtiz

1945: O Bom Pastor, de Leo McCarey

1946: Farrapo Humano, de Billy Wilder

1947: Os Melhores Anos de Nossa Vida, de William Wyler

1948: A Luz É Para Todos, de Elia Kazan

1949: Hamlet, de Laurence Olivier

1950: A Grande Ilusão, de Robert Rossen

 

Como não dá para falarmos de todos, separei alguns destaques das duas décadas.

 

Os Mais Celebrados

Claro que vários outros filmes das décadas de 30 e 40 foram também muito importantes e são maravilhosos (particularmente, eu amo os dois do Frank Capra, Aconteceu Naquela Noite e Do Mundo Nada Se Leva). Mas estes 4 que escolhi são provavelmente os mais lembrados e conhecidos do grande público, ainda que só de nome.

Sem Novidade no Front
(dirigido por Lewis Milestone | EUA, 1930)
Minha nota: ★★★★★★★★★★ [10]

Um filme atualíssimo, apesar de retratar soldados alemães na I Guerra Mundial. O filme traz diálogos que se aplicam totalmente aos dias obscuros que vivemos hoje. O longa chegou a ser proibido na Alemanha durante o regime Nazista, por considerarem que mostravam os soldados do país como covardes. O que acontece na realidade é que o discurso patriótico e as promessas de glória por defender seu país feitas a jovens estudantes alemães são desconstruídos pelas mazelas da guerra. A verdade é que, numa guerra, ninguém pediu para estar ali e ambos os lados se tornam criminosos e também vítimas.

Tecnicamente o filme também é maravilhoso e a última cena foi eternizada. 10 com louvor!

 

Grande Hotel
(dirigido por Edmund Goulding | EUA, 1931)
Minha nota: ★★★★★★★★★☆ [9]

Foi um dos primeiros clássicos que vi na vida e é um dos responsáveis pelo meu amor pelo cinema. O Dr. Otternschlag (Lewis Stone) acredita que “pessoas vêm, pessoas vão e nunca nada acontece” em um dos ais luxuosos hotéis em Berlim. Mas ele está enganado. Quando Baron Felix von Geigern (John Barrymore), Otto Kringelein (Lionel Barrymore), Preysing (Wallace Beery), a bela Flaemmchen (Joan Crowford) e a triste bailarina Grusinskaya (Greta Garbo) chegam no recinto, tudo fica bastante movimentado.

Esse filme rendeu algumas das frases mais icônicas do cinema, como “I want to be alone” (eu quero ficar sozinha) de Greta Garbo.

 

…E O Vento Levou
(dirigido por Victor Fleming | EUA, 1939)
Minha nota: ★★★★★★★★★☆ [9]

São quase 4h de filme, mas não são 4h sofridas. Sofrer mesmo quem sofre é a pobre da Scarlett O’Hara. Come o pão que o diabo amassou. O filme se passa na época da Guerra Civil americana e gostei muito da abordagem fora das batalhas que deram, fazendo com que o espectador sinta a guerra mesmo sem vê-la de fato em cena.

Ótimo também ver que Scarlett não é a típica mocinha perfeita, sendo uma mulher cheia de defeitos e com personalidade forte e intempestiva. A fotografia é simplesmente de cair o queixo.

 

Casablanca
(dirigido por Michael Curtiz | EUA, 1942)
Minha nota: ★★★★★★★☆☆☆ [7]

O reencontro de Rick (Humphrey Bogart) e Ilsa (Ingrid Bergman) na rota de fuga para escapar dos Nazistas na II Guerra Mundial, a cidade de Casablanca, no Marrocos. Um filme cheio de romance e complicações da guerra. Confesso que não morro de amores, mas muitos o consideram o melhor filme de todos os tempos. Certamente é o grande ícone da época, ainda mais por se tratar da guerra que estava acontecendo naquele momento.

 

O primeiro western vencedor
Cimarron
(dirigido por Wesley Ruggles | EUA, 1931)
Minha nota: ★★★★★★★☆☆☆ [7]

Esse filme parece uma aula de história sobre o desbravamento do meio-oeste americano e a fundação do estado de Oklahoma. O ritmo do filme é um pouquinho arrastado, mas ele é bem dirigido.
Li internet afora comentários do tipo “nossa, que filme racista!” ou “esse filme é machista”. Vejam bem… ele retrata a região e seus habitantes entre 1889 e 1929. E, como eu disse, é história. Contar isso sem retratar o preconceito com índios, o modo odioso como tratavam os negros e a valorização da mulher “bela, recatada e do lar” que havia na época seria contar a história errado e uma tremenda hipocrisia. O personagem de Richard Dix é colocado como o grande herói do filme. No entanto, na minha visão, é sua esposa Sabra Cravat, vivida por Irene Dunne, o grande destaque. A forma como sua personagem, inicialmente uma mocinha cheia de frescuras e preconceitos, vai crescendo e se tornando uma mulher forte e corajosa com o desenrolar da história é lindo de se ver.

 

A primeira biografia vencedora
Ziegfeld – O Criador de Estrelas
(dirigido por Robert Z. Leonard | EUA, 1936)
Minha nota: ★★★★★★★★☆☆ [8]

A primeira biografia ganhadora do Oscar mostra a carreira de Florenz Ziegfeld, um produtor e caçador de talentos que fez muito sucesso na Broadway no início do século passado. Se você não gosta de musicais, passe bem longe desse aqui. O que os números de dança e música têm de suntuosos, tem de longos também. Aliás, o defeito do filme é esse, suas 3h de duração. Acaba sendo um pouco cansativo. Mas claro que meu coração de bailarina não resiste ao sapateado de Ray Bolger e o ballet de Harriet Hoctor. Meus olhinhos brilharam.
Como já vi que é recorrente nesses clássicos vencedores do Oscar, por mais arrastado ou cansativo que o filme seja, o final costuma ser bem poderoso. Aqui não é diferente. O final é tão icônico que o espectador termina o filme satisfeito.

 

O único filme de Hitchcock a vencer
Rebecca, a Mulher Inesquecível
(dirigido por Alfred Hitchcock | EUA, 1940)
Minha nota: ★★★★★★★★★☆ [9]

Mais um filme de pura tensão psicológica de Hitchcock. Uma moça se casa com um ricaço, herdeiro da mansão Manderley, um ano após ele ficar viúvo. Mas a memória da falecida esposa, Rebecca, ainda está muito viva no local.
A forma como Hitchcock conduz a direção torna o filme intrigante. Linda também a atuação da Joan Fontaine. Com personagens marcantes e um enredo que se desenrola na velocidade certa, para o espectador degustar cada informação, Rebecca foi o filme que rendeu a Hitchcock a primeira de cinco indicações ao Oscar de Melhor Diretor. Ele nunca venceu a categoria, mas esse filme levou o prêmio principal.

 

O primeiro film-noir vencedor
Farrapo Humano
(dirigido por Billy Wilder | EUA, 1945)
Minha nota: ★★★★★★★★☆☆ [8]

Muito diferente de todos os outros filmes de Billy Wilder que já assisti, esse film-noir é a história de Don Birnam, um escritor alcoólatra que não consegue terminar um livro sequer graças a um belo bloqueio criativo (quem nunca? haha). Birnam está em um espiral para o fundo do poço: quando mais perturbado fica, mais bebe… e quanto mais bebe, mais perturbado fica.
O filme é muito bem dirigido e bem interpretado, causando ao mesmo tempo repúdio e compaixão pelo protagonista. Ótimo mesmo!

 

O primeiro filme não americano a vencer
Hamlet
(dirigido por Laurence Olivier | Reino Unido, 1948)
Minha nota: ★★★★★★☆☆☆☆ [6]

Baseado na peça de William Shakespeare sobre o príncipe dinamarquês que vive o dilema em relação ao tio, provável assassino de seu pai, Hamlet foi o primeiro longa não americano a ganhar o Oscar de Melhor Filme. Com um tom completamente teatral, conservando boa parte do texto original de Shakespeare (incluindo o inglês arcaico) e um Laurence Olivier velhinho demais para o personagem principal, o filme não me convenceu tanto quanto deveria. Olivier foi bem como diretor e sua atuação é, sim, poderosa. Mas a idade dele me incomodou demais. O filme acaba sendo meio cansativo e a culpa não é do texto de Shakespeare e sim do tom do roteiro passado à tela. O que funciona em um palco dificilmente funciona da mesma forma no cinema. Por isso são necessários ajustes, que aqui, por um certo puritanismo histórico e literário de Olivier, não foram feitos.

 

Ainda temos algumas décadas de filmes maravilhosos para discutir. Mas isso e assunto para o próximo post. 😉

Roseana Marinho

Roseana Marinho

Publicitária, desde a adolescência apaixonada pela sétima arte, opina e debate sobre as obras cinematográficas. Ama literatura, astronomia e história e é tão eclética que faz ballet clássico e kung fu. Nas horas vagas, além dos filmes, também vê muitas séries.

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