ETNOBOTÂNICA: UMA PONTE ENTRE O SABER POPULAR E O CIENTÍFICO

O Brasil possui uma grande diversidade biológica: A Amazônia, o Pantanal, a Caatinga e a Mata Atlântica são alguns exemplos de biomas que congregam esta biodiversidade. Os grupos sociais com raízes africanas presentes nas comunidades quilombolas, os povos indígenas e não indígenas são exemplos da diversidade cultural do nosso povo. O conhecimento destes grupos sociais aliados à biodiversidade brasileira constitui fatores importantes sobre o manejo e a utilização de plantas utilizadas na medicina popular que são passados de geração a geração.
A Etnobotânica consiste no estudo das relações entre as sociedades humanas e plantas. O termo etnobotânica foi utilizado pela primeira vez pelos biólogos para designar o uso das plantas por povos nativos. Trata-se de uma disciplina científica relativamente nova que não tem sido sistematizada e formalizada como as ciências já estabelecidas (HAMILTON et al. 2003 apud OLIVEIRA, 2009). Entretanto, o uso terapêutico de plantas é um dos traços mais característicos da espécie humana. Em sociedades tradicionais, a transmissão oral de geração a geração é a principal maneira de como esse conhecimento é passado.
Esses conhecimentos geralmente não são encontrados em livros, visto que ele é construído a partir das diversas experiências que um grupo de pessoas vivencia e compartilha em determinado local e momento (DICKMANN e DICKMANN, 2008 apud SILVA et al.) que constituem os saberes populares. De acordo com Silva et al. (2014) saberes populares constituem um conjunto de conhecimentos que foi produzido de forma espontânea, que vai sendo repassado ao longo do tempo, entre familiares e pessoas próximas.
Atualmente a Etnobotânica corresponde a uma disciplina específica em algumas instituições de ensino superior em outras são abordadas como tópicos relacionados principalmente nos cursos de biologia. Seu conhecimento e utilidades são utilizados por diversos profissionais: botânicos, farmacólogos, antropólogos, médicos, entre outros. Nas disciplinas do ensino básico a Etnobotânica constitui um tópico que pode ser utilizado de forma multidisciplinar.
Tenho percebido ao longo de minha caminhada como professor de biologia da escola pública, que quando incluímos etnobotânica, dentro do estudo de botânica se percebe que a maioria dos alunos possui conhecimento prévio sobre plantas que são utilizadas na medicina popular, já que essa utilização representa uma ligação com o seu cotidiano. Desta forma, verifica-se que este tema apresenta uma grande aceitação por parte dos alunos e que o mesmo pode contribuir muito na sua formação escolar.
Alguns alunos expressam suas dificuldades para estabelecer uma conexão entre os conteúdos curriculares e suas vidas (BRASIL, 2013), porém, os professores servem como elo de facilitação para que aquilo que é ensinado em sala de aula tenha vínculo com o cotidiano vivenciado pelos alunos proporcionando com isso, uma maior significação do conhecimento adquirido, atraindo a atenção dos alunos e facilitando o processo de ensino-aprendizagem.

Destarte, a inclusão da Etnobotânica no currículo escolar dentro do conteúdo de botânica constitui uma forma importante de motivação, podendo se constituir numa ferramenta eficaz no processo pedagógico do estudo da biologia. É possível estabelecer uma didática que vincule o conhecimento Etnobotânico com o conhecimento Científico, abordado na formação escolar. Isso constitui uma das maneiras de reduzir a distância entre o popular e o científico, favorecendo pedagogicamente o processo de ensino-aprendizagem, segundo Costa (2008, p.8), pois, possibilita o envolvimento do aluno no processo da construção do conhecimento.

Obs: Essa matéria é parte integrante do artigo “Etnobotânica: uma ponte entre o saber popular e o científico” de minha autoria.

Referências:
1. BRASIL. MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO. Formação de Professores do Ensino Médio, Etapa I – Caderno III; O Currículo do Ensino Médio, seus Sujeitos e o Desafio da Formação Humana Integral, Curitiba – Setor de Educação da UFPR, 2013. P 31.
2. COSTA, R. G. A. Os saberes Populares da Etnociência no Ensino das Ciências Naturais: uma Proposta Didática para Aprendizagem Significativa. Revista Didática Sistêmica, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 2008. Disponível em: Acesso em 08 de fevereiro de 2015.
3. OLIVEIRA, F. C. DE; ALBUQUERQUE, U. P. DE; FONSECA-CRUEL, V. S. DA; HANAZAKI, N. Avanços nas Pesquisas Etnobotânicas no Brasil. SãoPaulo, 2009. Disponível em: Acesso em 19 de fev. de 2015.
4. SILVA, S. S. et al. Práticas de Preservação e Conservação Ambiental e Saberes Populares Relacionados ao Meio Ambiente Difundidos entre Agricultores no Município de Lavras. Encontro Internacional sobre Gestão Empresarial e Meio Ambiente. Engema, 2014. Disponível em: Acesso em 10 de fev. de 2015.

Henrique Lopes

Henrique Lopes

Formado em biologia (UFAL) com especialização em Engenharia Ambiental (CESMAC) e mestrando em Ciências da Educação.

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One thought on “ETNOBOTÂNICA: UMA PONTE ENTRE O SABER POPULAR E O CIENTÍFICO

  • 16/11/2016 at 7:04 pm
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    Grande Henrique. Muito estimulante sua matéria, e tb muito pertinente para o que estamos observando nessa geração atual. Acredito que o modelo de escola e tb o modelo como é aplicada a educação nos dias atuais estão demasiadamente ultrapassados, pois , precisa-se dá mais oportunidades aos professores para que consigam estimular os alunos, principalmente no que toca as experiências em seu meio. Talvez assim, potencialize a capacidade dos alunos de ter melhor compreensão do que é passado em sala de aula, e contribua para o amadurecimento escolar desses alunos. Parabéns!

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